quarta-feira, 4 de fevereiro de 2015

Divagando sobre o Pacote Levy(ano)


Foto: Visão Nacional


"As medidas adotadas pela equipe econômica do governo federal são suficientes para conter o avanço da inflação?", me perguntaram.

Nos discursos dos governos, da grande mídia e dos agentes do mercado, a ordem do dia é a contenção da inflação, o equilíbrio fiscal e a retomada do crescimento. A adoção de medidas contracionistas é ação trivial da cartilha ortodoxa e o pacote de Levy não poderia ser mais ilustrativo: aumento de impostos, corte de gastos em investimento e serviços sociais, e "recuperação" do superavit primário.

É verdade que não podemos menosprezar a alta relativa no índice de preços. Seus efeitos sobre a distribuição de renda são sérios e punem cruelmente os assalariados, já que reduzem o poder aquisitivo de quem aufere rendimentos fixos, cujo reajuste é feito em observância a prazos estabelecidos em lei. Precisamos, no entanto, fugir do terrorismo da direita obsessiva pelas metas de inflação - aliás, em 2014, o índice ainda ficou abaixo do teto, acumulando 6,41% no ano. Há outros fatores que devem ser inseridos no debate mais amplo e merecem lugar de destaque.

A
elevada taxa Selic, o peso da carga tributária sobre o consumo e o aumento de gastos com juros da dívida tendem a encarecer o crédito e frear o investimento e o consumo, podendo até manter tendências inflacionárias em certos setores, já que os estímulos para ampliação da oferta são retraídos e a taxa de lucro pretendida na economia real tende a se balizar pelos rendimentos oferecidos no setor financeiro. A taxação de grandes fortunas, a redução da taxa básica de juros e até o maior controle do mercado financeiro poderiam ser mais eficazes para a saúde fiscal, para o controle da inflação e para o crescimento sustentável da economia, mas são temas convenientemente esquecidos pelos grupos que detêm o poder econômico no país.


É provável que
as medidas de Levy segurem a inflação e distanciem o índice para baixo do teto da meta, mas o efeito é quase colateral, já que seu pacote é muito mais eficiente em garantir os interesses do mercado financeiro do que qualquer outra coisa. "Acalmar os mercados" não só vai enriquecer os que já são muitos ricos como vai exigir que o povo brasileiro aperte os cintos e arque com uma crise que nunca foi dos trabalhadores.

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