O país segue numa crise econômica que não dá sinais de trégua. O desemprego, a violência e a restrição a demandas básicas da vida humana fazem parte do cotidiano da maioria da população brasileira. No cerne dos problemas, uma diretriz clara para os governos: equilíbrio nas contas e superavit primário para pagar juros da dívida pública. Em nome desse mantra, há uma caça às bruxas aos “culpados”: os direitos trabalhistas e a previdência social. Por isso, a reforma trabalhista e a reforma da previdência são pontos relevantes para o mercado nessas eleições. O mercado não confia no PT e na candidatura de Fernando Haddad para aprovar medidas que promovam piora na qualidade de vida da população e sinalizou isso à sua forma: a bolsa de valores teve seu melhor resultado em meses diante de Jair Bolsonaro, candidato pelo PSL, figurar no segundo turno como o mais votado e da eleição de deputados e governadores inclinados às propostas austeras de Paulo Guedes, “guru” de Bolsonaro, para a economia.
A reforma trabalhista aprovada no Governo Temer ampliou a terceirização e modalidades de contratação diferentes da celetista, pontos vantajosos para os empregadores, e até hoje esperamos sentados os ditos impactos para geração de emprego formal. Na verdade, nunca vimos tantos informais vendendo nas calçadas e nos transportes públicos e é alarmante a oferta de vagas de emprego de remuneração abaixo do salário mínimo.
Também no Governo Temer, aprovou-se um teto de gastos públicos que congela salários e despesas em setores sociais por vinte anos – uma vez que, a melhor das hipóteses, limita reajustes à inflação. Bolsonaro votou a favor enquanto deputado, mas Haddad fala em revogar o teto. O congresso eleito, porém, indica não considerar tal possibilidade.
Ganha força no mercado a proposta de regime de capitalização para previdência. O mesmo regime vigora no Chile desde o ditador Pinochet e hoje deixa 90% de seus aposentados vivendo com menos de R$ 700,00. Com isso, junto a critérios mais duros para efetivar a aposentadoria, promete-se acabar com o “rombo” da previdência. Ponto para o equilíbrio fiscal dos rentistas.
Mais da metade dos detentores dos títulos da dívida pública são grandes bancos. Em 2017, R$ 328 bilhões da dívida corresponderam somente a despesas com juros. Se a perseguição pelo superavit fiscal é a maior das diretrizes dos governos para alcançar um conceito de equilíbrio, convém perguntar: o voto do povo ratifica honrar contratos em termos que distorcem instrumentos de política monetária e chances de investimento para dar pano para a manga dos grandes bancos e especuladores estrangeiros?
O período eleitoral poderia fazer o eleitor comum refletir sobre a vida substancialmente, mas há figurões que não ajudam. Se a indignação com a corrupção está em evidência, que não nos leve ao ódio cego, mas ao questionamento de nosso sistema político, dos interesses também dos corruptores, da seletividade da justiça e da grande mídia. Se o aborto está em pauta, que não promova mera briga religiosa, mas que se debata como é pelo abandono paterno, pela insuficiência de creches e de estrutura pública de saúde, pela falta de perspectiva de emprego decente. Se a participação cidadã está sob discussão, que não se limite ao voto e muito menos nos leve ao descrédito aos movimentos sociais, quando reformas de grande impacto e diretrizes econômicas “sagradas” não nos são postas às claras nas campanhas eleitorais. Temos de reconhecer e tomar a política como a busca por conhecer e discutir a coletividade, organizar a vida em sociedade. Qualquer candidatura que não parta dessa premissa deixa de prestar um grande serviço ao Brasil; e qualquer uma que seja contrário a isso assume o rosto de todo tipo de retrocesso.
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