terça-feira, 15 de abril de 2014

Pelé e as “coisas da vida"


Foto: Reprodução Google
“É normal, é coisa da vida, pode acontecer. Foi um acidente, entendeu? Isso aí eu não acredito que assuste.”


Essa foi a declaração de Pelé, o “Rei do Futebol”, sobre a morte do operário Fabio Hamilton da Cruz, 23 anos, que, no fim do mês de março, caiu de uma altura de 15 metros enquanto trabalhava nas arquibancadas provisórias do estádio do Itaquerão, palco da abertura da Copa do Mundo da Fifa em 2014. Na mesma ocasião, Pelé aproveitou para dizer o que realmente o assusta: “A minha preocupação é a de todos. Infelizmente, temos essa oportunidade (a Copa no Brasil) e não estamos utilizando para fazer propaganda, não estamos aproveitando para o turismo. Minha preocupação é mais nesse sentido. Outra coisa são os aeroportos. Fui viajar, voltei, e estavam um caos. Faltam apenas dois meses!” 

Pelé é ídolo dos apaixonados pela arte do futebol. Capacidade atlética, técnica, habilidade, o jogador era bom em tudo. Ganhou sua primeira Copa do Mundo aos 17 anos e é o único jogador tricampeão mundial. É o maior artilheiro da seleção brasileira. Em toda sua carreira, jogou 1363 partidas e fez 1281 gols. Suas jogadas estão entre as mais lembradas da história do futebol. Até seus quase-gols são antológicos. Foi eleito o “Atleta do Século” por várias entidades internacionais, entre os mais variados esportes. Absolutamente fora do comum, parece que faz jus ao status de Rei.
Foto: Reprodução Google

Se dentro do campo Pelé foi um gênio incontestável, fora dele, é muita bola fora: silenciou diante da ditadura, declarou que o povo brasileiro não sabe votar sem entrar de fato no cerne da discussão, e deu grande poder aos empresários da bola, transformando de vez o futebol em um grande negócio através da Lei Pelé.

O craque quase nunca se preocupou em usar sua influência para promover claramente grandes questões sociais. Pelé, que já figurou com muitas camisas de patrocinadores, nunca vestiu veementemente a do combate ao racismo no futebol, por exemplo. Esse distanciamento dos embates sociais o faz um conveniente 12º jogador para o time dos adversários do povo. Vale ressaltar que, no campo político, essa disputa nunca é amistosa. 

A morte do operário Fabio Hamilton da Cruz é a oitava que acontece nos estádios em obras para o Mundial. Dessas oito, seis aconteceram em obras atrasadas, aceleradas pelas construtoras para cumprir prazos da Fifa. Ainda que alguns tentem individualizar as tragédias, os fatos não escondem os sinais de exploração, precarização e falta de fiscalização no trabalho realizado nas tais obras. No próprio Itaquerão, há trabalhadores que cumprem jornada de até 16 horas por dia. E essa situação não é evidenciada só pelo que dizem os próprios operários. O Ministério do Trabalho e Emprego, através da sua superintendência regional em São Paulo, constatou, também nas obras do Itaquerão, problemas de terceirização de funcionários, excesso de horas extras e falta de folga aos operários.

Para as famílias de Fabio Hamilton da Cruz, Antônio José Pita Martins, Fábio Luiz Pereira, José Afonso de Oliveira Rodrigues, José Antônio da Silva Nascimento, Marcleudo de Melo Ferreira, Raimundo Nonato Lima da Costa e Ronaldo Oliveira dos Santos, nem a oferta turística brasileira e nem a eficiência dos aeroportos irão compensar a dor da perda irreparável. O descaso com o trabalhador, a vida em detrimento do lucro, nada disso pode ser considerado normal. A morte de Fabio é o oitavo gol contra do Brasil e mancha de sangue os gramados brasileiros, mas, para o maior jogador de todos os tempos, o fato não assusta. A sensibilidade manda lembranças.

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