quinta-feira, 17 de julho de 2014

O jogo sujo do machismo na Copa do Mundo*

Os megaeventos são grandes oportunidades para empreendedores. A infraestrutura mobilizada e o alcance internacional do público-alvo são fatores que movimentam os mais diversos setores da economia.

Sediando a Copa do Mundo da Fifa nos meses de junho e julho, a bola da vez foi o Brasil. Se, para faturar, houve sacadas criativas como as simples e divertidas "bike-táxis" dos cearenses, houve, por outro lado, muita bola fora, especialmente com o incentivo ao turismo sexual.
             
O Brasil carrega o estigma de ser resumido a futebol e belas mulheres, o que foi fortemente difundido a partir dos anos 1970 através das campanhas turísticas internacionais promovidas pelo regime militar. Hoje, apesar de, oficialmente, o governo brasileiro tentar inibir e repudiar a propaganda turística via apelo sexual, tal estratégia para atrair turistas ainda é amplamente utilizada. 

Destacamos como primeira grande bola fora a recepção das delegações ao Congresso Técnico da Fifa em Florianópolis, capital de Santa Catarina. As comissões técnicas das seleções foram recebidas com um caderno turístico estampado com fotos de várias mulheres de biquíni, que podiam ser encontradas no "melhor clube de striptease da cidade”, conforme indicava o material.

Jogando no mesmo time que o machismo, a Adidas, uma das patrocinadoras oficiais da Copa do Fifa, deu mau exemplo ao lançar uma série de camisas que comemoravam a Copa do Mundo no Brasil trazendo mulheres de biquínis e os dizeres “Eu amo o Brasil” e “Buscando marcar gols” em mensagens de duplo sentido que associavam o sexo ao turismo no Brasil e ao futebol. Devido à repercussão negativa, a empresa retirou as camisas de circulação em poucos dias.

Em São Paulo, outra falta grave. A propaganda da casa noturna Bahamos Hotel Club apresentou, em diversos outdoors instalados nas rodovias estaduais, uma mulher, com um minúsculo short jeans, sentada em uma bola de futebol, em frente ao que parece ser um homem, de chuteiras e com bermuda abaixada, em uma clara alusão ao sexo oral. Foi dessa forma que a casa noturna convidou o público a conhecer o estabelecimento.

Por último, mas não menos impactante, o apresentador Luciano Huck, da Rede Globo, frente à intensa presença de turistas no país, convocou mulheres solteiras do Rio de Janeiro a enviarem fotos com a promessa de encontrar seus "princípes encantados" entre os gringos torcedores. A chamada caiu muito mal entre os brasileiros, que, vendo a ação como um incentivo ao turismo sexual em terras cariocas, não pouparam de taxar o apresentador de "cafetão".

As iniciativas de fomento ao turismo sexual foram tão evidentes que nem as atividades ilegais relacionadas à exploração puderam ser veladas. A prostituição infanto-juvenil continuou descarada durante a Copa do Mundo,
com meninas menores de idade ofertando sexo por R$ 20 para quem quisesse ver. A exploração sexual de crianças e adolescentes em Fortaleza e Recife denunciada por agências de notícias estrangeiras, durante o evento, ratifica os efeitos perversos dessas cidades carregarem a fama de destinos do turismo sexual.

Na maioria dos casos, por trás da prostituição e da exploração sexual (sim, esses conceitos devem ser tratados com bastante proximidade), há um contexto social preocupante: falta comida em casa, falta acesso à educação e à cultura, falta moradia adequada, faltam melhores oportunidades de trabalho. Ainda que o turismo sexual não seja crime, incentivá-lo implica em tirar proveito de uma situação de vulnerabilidade e fragilidade da mulher para usá-la como mercadoria, reforçando seus esteriótipos relacionados ao sexo e à submissão, já tão propagados pela mídia e nas rígidas relações sociais do cotidiano, predominantemente machistas. Assim, para superar esse mercado assombroso de mulheres-mercadorias, é preciso tomar como eixo, tanto na esfera econômica quando na social, outra visão da mulher, uma em que sua capacidade, autonomia e independência sejam incentivadas, respeitadas e valorizadas.

Ao invés de vestir a camisa do combate à exploração sexual e intensificar campanhas e políticas de prevenção para mitigar o problema, a Fifa e os governos fizeram corpo mole. Ainda que, durante a Copa, o machismo tenha ficado em vantagem, há de se ressaltar que o time dos que não compactuam com a opressão e a exploração da mulher permanece em campo, com garra e voz, convocando outras mentes conscientes para o embate. E assim vai ficar até virar esse jogo.

*escrevi o artigo para Revista Confira

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