Em muitas vezes, bem mais do que eu gostaria, eu tenho bem pouca fé em Deus e na espiritualidade. Beira à zero. Firmo o pé na sorte e no azar, no contexto que pré-determina nossa condição. Sabe-se lá o que será do caminho, o que ou quem iremos encontrar, como ou se os causos da vida vão nos influenciar. O que se sabe é que o fato é produto do acaso, um ocorrido que até pode ter sido uma consequência de outro ocorrido, mas ambos necessariamente fluíram de maneira pura e unicamente material. Cabe-nos, então, trabalhar em atenção à concretude da vida.
Do Ceará para cá, as estradinhas obscuras foram inúmeras. Muitos dos "próximos passos" eram etapas consideravelmente incertas, contavam com estruturas frágeis e cheias de brechas. Por ora, pouparei vocês das ilustrações. A questão é que o balanço de tudo isso vem contrariando a Lei de Murphy.
Algo não só tem me livrado de um monte de maus bocados, mas também tem cimentado as estradinhas, iluminado o caminho, plantado flores bonitas nos canteiros e tem chamado gente com bandejas de afeto, cuidado e carinho para me oferecer.
Que é esse algo? É sorte? É acaso? Que eu estaria fazendo no plano puramente material para colher afeto e certezas advindas do inesperado e do desconhecido? Não pode ser só isso, minha gente.
Da reflexão dessas expectativas contrariadas é que me aparecem as muitas vezes em que eu tenho bem muita fé em Deus e na espiritualidade, bem mais do que eu gostaria. Minha perspectiva leva em consideração uma coisa que tem muitos nomes. Eu chamo de sintonia vibratória. É o campo de vibração que criamos com nossos pensamentos e sentimentos.
(não há mais como evitar a ilustração, me perdoem)
O que me inspirou esses escritos foi um senhor de uns sessenta e tantos anos, a quem entrevistei devido ao trampo de cada dia. Os temas das questões nos permitem traçar as condições sociais e econômicas dos cidadãos e de suas famílias.
A situação daquele senhor era das mais comuns, e por isso também das mais tristes e revoltantes que nosso país lamentavelmente abriga. Mas não foi a miséria de sua condição que impediu que a entrevista tomasse o tom de prosa e que a curiosidade do entrevistado a meu respeito fosse contida. Ao conhecer meus objetivos nessas terras, longe das minhas, as minhas frustrações de agora e os planos esboçados, o sujeito se esqueceu que tinha me pedido pressa para realizar a tal entrevista e detalhou o que teria de ser o meu próximo ano para alcançar os propósitos do horizonte mais próximo e até mais do distante. A fala mansa e firme já tinha demonstrado uma preocupação fraterna, mas a primeira despedida reiterou a intenção:
- Olha, se quiser, apareça por aqui. Não pelo seu trabalho. Venha para tomar um café. Aqui tem uma família, se você quiser. Aqui tem uma família. Venha.
Eu sorri, agradeci pela generosidade e demos as mãos. Nem sei se consegui externalizar a gratidão que me encheu naquele instante.
Saí pensando em todas as pessoas que me ofereceram um café e uma família. Foram tantas. Elas contrariaram a Lei de Murphy e brotaram ali no meu caminho, ao longo dele, sem eu ter, nessa esfera material, nada que as cultivasse. A ânsia de buscar a quem agradecer por me ver cercada de boa vontade, fraternidade e ternura me faz acreditar que isso também é construído. Se não há nada que me faça perceber a linha dessa costura nas andanças e relações puramente terrenas, encontro isso no plano espiritual, onde o pensamento atua e a espiritualidade tenta orientar.
Ao passo em que me aumenta o sentimento de gratidão, me pesa o da responsabilidade. Se o meu padrão espiritual me deu esse privilégio, eu preciso trabalhar para fazer por merecer o alcance desse estágio. As pessoas são capazes de oferecer o melhor delas quando se veem num ambiente que lhes favoreça esse exercício. E isso existe em algum grau ainda que lhes pese uma vida material sofrida. É tão injusto que essa vida material sofrida dite os caminhos e as condutas da humanidade que não há como esse meu sentimento de gratidão, por receber o melhor das pessoas, também não venha a despertar e evidenciar o sentimento de revolta.
Por tudo isso, em muitas vezes, eu tenho bem muita fé em Deus, na espiritualidade e no trabalho em atenção à concretude do mundo. Bem como eu gosto, que isso me permite atuar em diversos planos e, portanto, multiplica a esperança pelo melhor da vida - e de maneira mais plena.
Por tudo isso, em muitas vezes, eu tenho bem muita fé em Deus, na espiritualidade e no trabalho em atenção à concretude do mundo. Bem como eu gosto, que isso me permite atuar em diversos planos e, portanto, multiplica a esperança pelo melhor da vida - e de maneira mais plena.
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