[Alerta: esse é um lamento possivelmente chato para terceiros]
Ontem, José Ribamar Ferreira partiu. Também usou o sobrenome da mãe para espalhar sua arte mundo afora. Não quis o afrancesado "Goulart" e inventou "Gullar".
Não podia deixar de registrar meu apreço por esse maranhense. Deu uma senhora guinada à direita no fim da vida, é verdade, mas seus escritos de outros tempos me apresentaram o poema crítico em pleno despertar da minha consciência de classe (que não adormeceu mais).
A oportunidade de trabalhar com seus poemas me fez guardá-los como se guarda música.
Lembro de "Não há vagas" com a inflação ("O preço do feijão não cabe no poema"). De "Traduzir-se" frente à arte que eu mal entendo ("Será arte?"). De "Lampejo" quando o povo "de repente se zanga e quebra trezentos ônibus nas ruas de Salvador". De "Subversiva" quando eu também quero incendiar o país. Do graciosa "Cantada" ao ver algo quase tão bonito quanto a Revolução Cubana. De "Ocorrência" quando um homem sério entra e diz "bom dia". Lembro, como um consolo, do "A Poesia" quando percebo que o amor (era muito? era pouco?
era calmo? era louco?) passa.
E nesse cenário "doismiledezesseisense" de angústia, de desencarne, de olhar para vida e ver o quanto que ela nos exige, eu lembro que "No mundo há muitas armadilhas".
(...)
No mundo há muitas armadilhas
e muitas bocas a te dizer
que a vida é pouca
que a vida é louca
E por que não a Bomba? te perguntam.
Por que não a Bomba para acabar com tudo, já
que a vida é louca?
Contudo, olhas o teu filho, o bichinho
que não sabe
que afoito se entranha à vida e quer
a vida
e busca o sol, a bola, fascinado vê
o avião e indaga e indaga
A vida é pouca
a vida é louca
mas não há senão ela. (...)
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