quinta-feira, 2 de março de 2017

De mim, nordestina

Hoje presenciei aquilo que a gente lê no twitter, ouve do Diogo Mainardi, que é "informado" muitas vezes pela grande mídia: o povo do Norte e Nordeste é curral eleitoral, ganha Bolsa Família sem levar filho à escola e foi sua ignorância nas urnas em 2014 que atrasou o país.

Aconteceu na aula de um centro de formação de condutores daqui de Campinas. Partiu do instrutor do curso. Pedi licença para falar e saiu algo assim: "Que você tenha suas impressões sobre as coisas, isso é normal. Mas, na sua posição de instrutor, muito disso soa como verdade e eu preciso dizer que essa história não só é fruto de uma desinformação tremenda, mas algo que incentiva o preconceito."

Ele nem quis discutir o lance da sua conduta enquanto instrutor. Argumentou citando as grandes fraudes nas políticas assistencialistas, o fato da maioria da nossa gente não ter energia elétrica em casa, o que impede o acesso a meios de informação, a acomodação generalizada dos beneficiados do BF - mitos que tantos já desconstruíram.

Evitei argumentar com a minha vivência acadêmica. Eu mesma não acredito que isso necessariamente nos forneça lucidez política ou social. Falei que tanto aqui quanto lá a grana por trás das candidaturas é que manda no jogo, que é injusto nos resumir à ignorância do mundo da politicagem. "Vai no Parque Oziel, no Vida Nova. Olha aí pela janela o tanto de morador de rua." Falei que nada nos difere. Estamos todos querendo uma vida melhor. "Acha mesmo que com Aécio as coisas estariam diferentes? Hoje mesmo se falou que pediu uns 15 milhões ao Odebrecht em 2014. Foi citado umas tantas vezes nessa Lava Jato." A questão é que falta dignidade aqui e lá, e as pessoas, trabalhadoras, "como você, como eu", são incríveis em sobreviver assim. Estamos no mesmo barco. "E sou do Ceará. Tenho muito orgulho do povo de lá", registrei.

Enquanto a voz dele contava com o respeitador silêncio da sala, uns murmúrios impacientes acompanhavam a minha. Por ser nordestina? Por eu ser mulher? Por ser nordestina, mulher e falar de política? Sabe-se lá. Ele deu um "tchau, linda" e a falta de alguma demonstração de empatia ali me pesou o corpo. Chorei que só na volta pra casa. Desabafei com o Thiago, que mora no quarto ao lado. Eu li no twitter, ouvi do Diogo Mainardi, "me informei" com aquele mapa da Folha de São Paulo sobre as eleições, mas foi a primeira vez que senti dessas coisas lá no fundo.

Do tanto que passa na cabeça, o que eu posso dizer é que a desinformação e a indiferença naquela sala não se deu por má fé, não nasceu do nada. O poder econômico elege um padrão, um sotaque, uma cultura e dissemina preconceitos de todos os tipos entre nós, trabalhadores e trabalhadoras desse Brasilzão diverso e bonito. É preciso que qualquer um que puder levantar para questioná-los, desmistificá-los, assim o faça. E sem pedir licença.

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